Existe uma pergunta que toda empresa deveria fazer ao olhar para suas viagens corporativas. O deslocamento realizado era necessário, foi planejado da melhor forma e teve seu impacto ambiental considerado na tomada de decisão?
Se a resposta ainda depende apenas da compra de créditos de carbono ou do plantio de árvores para compensar emissões, existe uma parte da gestão que precisa avançar.
O ESG aplicado às viagens corporativas começa antes do embarque. Ele envolve as decisões que determinam quando viajar, qual transporte utilizar, como organizar a agenda, onde se hospedar e quais indicadores acompanhar após o retorno.
Para empresas que precisam manter a operação em movimento e, ao mesmo tempo, responder a metas de sustentabilidade, a discussão exige uma mudança de perspectiva. O foco deixa de estar somente na compensação do impacto e passa a incluir a forma como cada viagem é planejada, executada e avaliada.
Compensar emissões não substitui reduzir o impacto
A compensação de carbono pode fazer parte de uma política ambiental. O problema começa quando ela ocupa o centro de toda a estratégia.
Uma viagem aérea gera emissões que podem variar conforme a distância, a aeronave, a ocupação e outros fatores. Comprar créditos de carbono não elimina fisicamente essas emissões do voo realizado.
Por isso, a gestão precisa olhar primeiro para as oportunidades de evitar deslocamentos desnecessários e reduzir impactos sempre que houver alternativas viáveis.
Uma reunião pode ser realizada remotamente? Duas visitas a clientes podem ser organizadas na mesma viagem? Existe uma opção ferroviária adequada para determinado trecho? A escolha do voo considera a possibilidade de reduzir conexões e deslocamentos adicionais?
Essas perguntas aproximam a sustentabilidade da rotina de quem aprova, compra e administra viagens.
A compensação pode entrar na estratégia após a avaliação das possibilidades de redução, com critérios claros sobre a qualidade dos créditos utilizados e a forma de comunicar os resultados.
O ESG também está nas decisões operacionais
Quando o assunto é ESG, a dimensão ambiental costuma receber mais atenção. Nas viagens corporativas, a gestão também precisa considerar aspectos sociais e de governança.
A dimensão ambiental envolve emissões, escolha dos modais, planejamento dos itinerários e critérios para contratação de fornecedores.
A dimensão social inclui segurança dos viajantes, condições adequadas de deslocamento, respeito aos períodos de descanso e políticas que considerem as necessidades de quem viaja a trabalho.
A governança aparece na definição das regras, na transparência dos gastos, no controle das aprovações e na qualidade das informações utilizadas para avaliar os resultados.
Essas dimensões se conectam nas decisões do dia a dia. Uma política que estimula viagens mais baratas, por exemplo, precisa considerar se a economia obtida compromete a segurança do viajante ou aumenta o custo total do deslocamento.
O mesmo vale para uma meta ambiental que incentiva o uso de outro modal sem avaliar o tempo de percurso, a viabilidade da agenda e as condições de trabalho do profissional.
Uma política ESG consistente considera essas variáveis antes de estabelecer suas regras.
Sem dados, a empresa não consegue medir o que precisa mudar
Não existe gestão ambiental confiável sem informações que permitam acompanhar o que acontece.
No contexto das viagens corporativas, isso significa conhecer o volume de deslocamentos, os modais utilizados, as distâncias percorridas, os gastos envolvidos e as emissões estimadas segundo uma metodologia definida.
Esses dados ajudam a identificar padrões que passariam despercebidos em uma análise restrita ao custo das passagens.
Uma empresa pode descobrir que a concentração de reuniões presenciais em determinadas regiões reduz a necessidade de viagens recorrentes. Outra pode identificar rotas nas quais existe uma alternativa de transporte com menor emissão e condições adequadas para a operação.
O acompanhamento também permite verificar se as mudanças adotadas produziram resultados ou se ficaram restritas ao planejamento.
Para isso, os indicadores precisam ter critérios consistentes, fontes identificáveis e uma frequência de atualização definida. Quando a empresa divulga resultados ambientais, deve informar a metodologia utilizada e evitar apresentar estimativas como se fossem medições exatas.
A qualidade dos dados influencia diretamente a capacidade de estabelecer metas realistas e prestar contas sobre o desempenho.
Como levar o ESG para a política de viagens corporativas
A aplicação prática começa com uma análise das regras atuais. Antes de criar novas exigências, vale entender como as viagens são solicitadas, aprovadas, contratadas e acompanhadas.
A partir desse diagnóstico, algumas medidas podem entrar na rotina.
1. Avaliar a necessidade do deslocamento
Definir critérios para reuniões presenciais e identificar situações em que ferramentas remotas atendem ao objetivo do encontro.
2. Considerar o impacto na escolha do transporte
Quando houver alternativas viáveis, avaliar as emissões estimadas junto com o custo total, o tempo de percurso, a segurança e as necessidades da agenda.
3. Planejar itinerários com antecedência
Organizar compromissos por região e evitar deslocamentos repetidos pode reduzir custos e emissões, desde que o planejamento respeite as condições de trabalho do viajante.
4. Definir critérios para fornecedores
Incluir requisitos ambientais, sociais e de transparência na avaliação de companhias aéreas, hotéis e demais prestadores, de acordo com a realidade da empresa.
5. Acompanhar indicadores e revisar as regras
Estabelecer uma linha de base, definir metas mensuráveis e revisar os resultados em períodos determinados. Os indicadores devem apoiar decisões, não servir apenas para compor relatórios.
A implementação precisa considerar o setor, a distribuição geográfica das operações, o perfil dos deslocamentos e os compromissos assumidos pela organização.
O papel da gestão de viagens nessa agenda
A gestão de viagens corporativas ocupa uma posição relevante porque conecta decisões de diferentes áreas. Financeiro, compras, sustentabilidade, recursos humanos e gestores de negócio podem ter objetivos distintos ao avaliar o mesmo deslocamento.
Sem regras compartilhadas, a empresa corre o risco de perseguir uma meta ambiental sem considerar o orçamento ou de reduzir gastos sem avaliar os efeitos sobre o viajante.
Uma política bem estruturada ajuda a estabelecer critérios comuns, organizar aprovações e reunir informações para decisões mais consistentes.
Nesse cenário, a MAAC entende que a discussão sobre sustentabilidade nas viagens corporativas precisa sair do campo das intenções e chegar à operação. Isso exige planejamento, dados confiáveis e critérios que possam ser aplicados na rotina da empresa.
A tecnologia e os processos de gestão podem apoiar esse trabalho ao facilitar o controle das solicitações, a organização das informações e o acompanhamento das políticas estabelecidas.
O resultado esperado não deve ser uma promessa genérica de viagens sustentáveis. Deve ser a capacidade de demonstrar quais decisões foram tomadas, quais impactos foram considerados e quais resultados podem ser comprovados.
ESG em viagens corporativas exige decisões que possam ser medidas
Compensar emissões pode integrar a estratégia ambiental de uma empresa. A gestão começa antes dessa etapa, quando a organização avalia a necessidade de viajar, considera alternativas e define critérios para reduzir impactos sem comprometer a operação.
Para quem administra viagens corporativas, o desafio está em transformar compromissos ambientais e sociais em regras aplicáveis, indicadores consistentes e decisões que possam ser revisadas.
A pergunta que fica para gestores de viagens, compras, financeiro e sustentabilidade é direta. A política de viagens da sua empresa considera o impacto dos deslocamentos antes de eles acontecerem ou trata a compensação como a principal resposta depois que tudo já ocorreu?
Essa resposta pode indicar por onde começar a revisar a estratégia.


